Textos escritos por Maria de Lourdes Ferraz como parte de sua luta para salvar o Casarão Júlio Ferraz de ser demolido nos anos 70. Sob o título “Memórias de um Sobrado”o folhetim foi publicado anonimamente no jornal O Atibaiense com a colaboração de Cecília Zanoni na coluna de Renato Zanoni. Desde 2021 os textos estão sendo publicados em forma de podcast e agora também em sua forma original como maneira de torná-los acessíveis a pessoas com deficiência auditiva e surdas oralizadas. Foram produzidos, gravados e disponibilizados 25 episódios, que contaram com a participação do público e de artistas da região. A produção de episódios foi fomentada por editais da Lei Paulo Gustavo, da Prefeitura de Atibaia e do PROAC.
EPISÓDIO #01
Há muita curiosidade em torno de minha história…vou tentar descrevê-la de modo bem simples.
Nasci no tempo em que o Brasil era colônia de Portugal. Minha certidão de nascimento perdeu-se no tempo. Minha infância foi um pouco triste…quase sem companhia. As casas eram esparsas… a mais próxima era a igreja Matriz, amiga fiel de tantos anos. O repicar de seus sinos anunciava as boas novas, as missas, as ações de graça. Seu dobre triste a notícia de que algum amigo se despedia para sempre…
Nas vésperas de Natal ou das festas juninas alguém se lembrava de mandar roçar o capinzal existente entre minha querida igreja e eu. Surgia então um espaçoso largo, que durante alguns dias ficava cheio de vida, com a presença das família residentes nas fazendas… Meus cômodos ficavam superlotados…. por todos os recantos muita alegria.
Vi o povoado crescer e se transformar em vila. Vi a vila crescer e se transformar em cidade. Vi as solenidades da investidura do primeiro capitão mór de Atibaia, como representante do rei. Anos depois, presenciei suas exéquias solenes e a posse de um dos seus filhos no cargo. Decorridos alguns anos, o fato se repetia, e o terceiro capitão mór foi empossado. A vida da cidade transcorria em mansa rotina, qualquer comentário sobre os acontecimentos que envolviam o país era feito muito discretamente…
Um dia percebi um movimento desusado, ouvi o povo delirando na praça, chorando e rindo ao mesmo tempo. Chegara a notícia da independência do Brasil!
O tempo havia passado e as crianças que brincavam em meus salões se tornaram adultas…. Os rapazes haviam concluído seus estudos e as jovens contraído matrimônio. Chegou a hora da decisão. Um dos membros da família nutria por mim especial carinho. Após os necessários acordos, ficou resolvido que ele ficaria comigo. Fiquei muito contente, pois temia cair em mãos estranhas.
O jovem em questão era culto e idealista. Logo galgou importante posto na cidade. Foi nomeado coronel chefe da guarda nacional. Passou a usar belos uniformes com suas dragonas e a receber muitas visitas. Seu futuro era promissor. Temi que ele me abandonasse…. Isso, porém não ocorreu. Para receber seus ilustres hóspedes, resolveu melhorar minha aparência. Seguiu os padrões arquitetônicos usado na época. Passei a ser um sobrado, com sacadas ornadas por grades trabalhadas enfeitadas com frutas. Ganhei um lindo salão de festas, diversas salas e inúmeras alcovas. E isso aconteceu na primeira metade do século passado….”
EPISÓDIO #02
Tornei-me o ponto de reunião dos liberais. A eles se opunham os conservadores. Ouvi muitos comentários sobre as revoltas que, logo após a independência, assolaram as diversas províncias. Os liberais eram discretos e até cautelosos em suas conversações.
Um dia ouvi o soluçar do sino…agonizante…- triste…dolorido…percebi logo um certo movimento no largo da matriz. As pessoas que estavam na cidade afluíram para lá. Todos estavam ansiosos para saber o que havia acontecido de tão doloroso para a nação. E o acontecimento era realmente triste. Um mensageiro chegara com a notícia do falecimento da primeira imperatriz. Ouvi o povo chorar e lamentar o sucedido.
Nos meus salões as reuniões eram cada vez mais animadas. as desavenças entre liberais e conservadores continuavam dia a dia mais cerradas. Iniciadas nos primórdios do império prosseguiram durante o período da regência e acabaram explodindo após a maioridade do imperador.
Certo dia percebi assustado que os senhores liberais estavam conspirando…As reuniões iam até altas horas da noite, portas fechadas, vozes abafadas. Alguns mais exaltados deixavam transparecer sua indignação com certas arbitrariedades cometidas na Capital do país. E os responsáveis por tudo que estava errado eram os conservadores em cujas mãos estavam os principais ministérios.
Pelas conversas deduzi que a província de São Paulo estava em pé de guerra!
Uma angústia geral pairava no ar. Os mais prudentes faziam uma interrogação: Que aconteceria se fossem mal sucedidos?
A resposta não demorou muito. A revolução foi sufocada num relâmpago e os responsáveis presos. Igual sorte tiveram os revolucionários atibaianos que não chegaram a lutar.]
Vi, com grande amargura, aquele que crescera sob meu teto ser preso. Foi levado para a Capital juntamente com um padre que frequentava as reuniões. Foi o dia mais triste de minha vida…Todos os meus cômodos foram vasculhados e depois fiquei só…ouvindo os ecos dos últimos acontecimentos.
Vi a cidade chorar seus líderes aprisionados. Ouvi comentários que em todos os lares estavam fazendo novenas a fim de implorar a Deus misericórdia para seus entes queridos. E assim passaram-se dias intermináveis…talvez meses…não sei precisar o tempo…
Isso aconteceu em 1842. Há um documento sobre a prisão do coronel Manoel Jorge Ferraz juntamente com o padre Antônio Mello e Silva.
EPISÓDIO #03
Percebi que a cidade ficara despovoada. Os moradores foram para suas fazendas, de parentes e amigos. Estavam meio assustados…
O silêncio me apavorava. De vez em quando ouvia o trotar de um cavalo que passava…ou o ladrar de um cão ao longe…ou o distante canto de um galo. Para meu consolo, no salão estava o retrato do meu querido ausente. Ele mandou fazê-lo quando foi agraciado com a ordem da rosa. Contemplando aquele retrato comecei a recordar um dos períodos mais felizes de minha existência…foi o das festas que aconteceram por ocasião do recebimento daquela condecoração.
Revi velhos amigos e antigos frequentadores, fazendeiros das redondezas e até de cidades vizinhas. Todos presentes para cumprimentar o novo dignatário da ordem da rosa. Havia muita alegrias entre os liberais.
Alguns conservadores também compareceram. Eram estranhos para mim. Observei-os com atenção. Chegavam meio ressabiados…uns iam logo dizendo que a amizade de infância estava acima das divergências políticas. Outro afirmavam que os laços de parentesco eram mais importantes que as rixas partidárias. A verdade, entretanto, era uma só. Estavam curiosos…queriam ouvir de viva voz tudo quanto havia acontecido na viagem.
As histórias da viagem da estrada na corte e das solenidades ocorridas na entrega da condecoração foram repetidas muitas vezes.
Ouvi os comentários dos jovens. Nosso primeiro imperador, para perpetuar a data de seu segundo casamento, instituíra a ordem da rosa. Um deles, muito entusiasmado, disse que o soberano tivera a ideia quando recebeu o retrato da princesa, muito jovem e muito linda, tendo uma rosa nos cabelos. Outro refeitou calorosamente: afirmou que fora porque o monarca ficara deslumbrado quando a princesa desceu do navio com seu vestido de gaze branca, salpicado de rosas entreabertas. Um senhor que ouvia a conversa deu seu aparte: era reminiscência da maçonaria, pois, havia, em outros países, ordens maçônicas de igual nome. Embora não tivessem chegado a um acordo quanto aos motivos do soberano, todos admitiram a importância da ordem da rosa, a maior condecoração do Império.
Minhas recordações foram interrompidas com a chegada dos moradores, vindo da fazenda. Estavam contentes… cantando…senti que algo muito bom estava acontecendo. Ouvi a novidade: fora concedida anistia total aos revolucionários.
OBSERVAÇÃO: A Ordem da Rosa foi criada em 17 de outubro de 1829.
Condecoração é uma “distinção” outorgada como recompensa oficial por serviços prestados ao Estado que a concede. É um prêmio a um estímulo nos diversos setores da atividade humana.
O atibaiano Manoel Jorge Ferraz foi agraciado com esta condecoração.
EPISÓDIO #04
EPISÓDIO #05
Decorrido algum tempo recomecei a participar dos destinos da cidade. Vi, com certa satisfação, os filhos do falecido coronel optarem por uma participação mais ativa no partido liberal. Pertenciam a uma linhagem de políticos. Além do exemplo deixado pelo pai, receberam orientação do avô materno, o último capitão-mor de Atibaia. Este, após a Proclamação da Independência, perdeu suas funções administrativas e sua autoridade como representante do governo. Continuou, porém, como cidadão atibaiano, a participar da política local. Era muito admirado e respeitado. Chegou a exercer cargos de eleições populares.
Percebi, desde os primeiros dias, que o ambiente que me cercava era totalmente diverso…mais alegre…menos formal.
Senti muito a ausência de meus antigos frequentadores… Certamente estavam se reunindo em outro local. Acabei me acostumando com os novos e comecei a apreciá-los. Havia um especialista em anedotas, outro em organizar caçadas e divertimentos congêneres, outro em festas…
Verifiquei logo que lhes faltava a maturidade de seus antecessores. Encaravam os assuntos políticos com certa irreverência. Divertiam-se com as anedotas que corriam sobre personagens importantes e com as caricaturas estampadas nos jornais, panfletos e pasquins. A reação, porém, era muito diferente quando a vítima pertencia ao partido liberal.
Notei que um dos mais jovens do grupo se distinguia dos demais pela seriedade com que encarava as questões políticas. Suas sugestões eram sempre oportunas e bem acatadas. Já o conhecia há bastante tempo. Era o neto preferido do capitão-mor, por vários motivos, inclusive porque herdara o seu nome e muitos traços de sua personalidade.
Ouvi muitas vezes o capitão-mor tecer elogios ao neto. Achava que ele seria o futuro líder do partido, pois possuía as qualidades necessárias para isso. Era dotado de grande senso prático e muito cedo abandonara os estudos para auxiliar o pai na administração dos negócios. Revelara-se um ótimo administrador.
Impossível descrever a satisfação que senti quando se realizou a precisão do capitão-mor. O jovem foi escolhido para chefe do partido liberal.
Revi novamente meus velhos amigos. Um a um foram aparecendo. A princípio cautelosos… invariavelmente paravam diante do retrato do antigo líder e recordavam saudosos algumas passagens.
Iniciara-se uma nova fase em minha existência. As reuniões sérias aconteciam de quando em quando. Havia menos tempo para os assuntos políticos, pois, a vida da cidade ia se modificando.
[pausa] Lucas de Siqueira Franco Neto, penúltimo filho do coronel Manoel Jorge Ferraz, foi durante cerca de vinte anos chefe do partido liberal desta cidade. Foi também durante anos seguidos o presidente da Câmara Municipal de Atibaia.
EPISÓDIO #06
O povoado começara a crescer… surgiram novas construções… o largo a minha frente mudou de feição… todo rodeado de casas. As residências eram térreas, pintadas de branco, encimadas por grandes beirais. Possuíam diversas janelas as quais, sem exceção, tinham rótulas. Essas moradias tinham grandes quintais, cheios de árvores frutíferas e flores silvestres. Nas ruas que passavam nos fundos ficavam os portões para entrada dos cavalos e das cargas vindas das fazendas.
O capinzal existente nesse largo continuava firme, teimoso, desafiante – apesar de sua extinção periódica.
De quando em quando o chiar das rodas de um carro de boi ou o passar de uma tropa de animais quebrava o silêncio que envolvia a praça…
Por um longo período minha existência foi calma e rotineira…uma contínua repetição dos fatos já narrados. Curti muita saudade.
Certo dia um acontecimento veio mudar essa rotina…foi a chegada do irmão mais jovem do chefe liberal. Acabara de se formar em Direito. Éramos velhos conhecidos e bons amigos. Costumava me visitar em suas férias. Trazia sempre alguns colegas. Falavam uma linguagem diferente…não conseguia entendê-los. Ora palestravam em francês…ora em inglês…ora em alemão…dependendo da preferência do visitante.
Senti grande alegria quando soube que uma de minhas dependências seria transformada em seu escritório.
Ouvi sua conversa com a irmã. Pretendia defender todas as causas justas, principalmente dos que tivessem menos recursos econômicos e prestar toda colaboração possível ao partido liberal. Era um idealista.
Escutei muitas críticas sobre essa faceta de sua personalidade. Os idealistas são sempre incompreendidos: dedicam-se, abraçam muitas vezes causas perdidas, trabalham sem visar recompensas, chegam a esquecer os próprios interesses. Na maioria das vezes, entretanto, apenas a desilusão os espera.
[pausa] Dr. Manoel Jacintho de Araujo Ferraz, nascido em 1834, em Atibaia, último filho de Manoel Jorge Ferraz, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1858.
EPISÓDIO #07
Vi os experientes senhores liberais preocupados com o idealismo do jovem advogado. Pretendiam introduzi-lo na política, cercavam-no de toda atenção. Ora um, ora outro aparecia para consulta, para uma troca de ideias sobre os acontecimentos que envolviam o país.
Ouvi nesses dias, muitos debates sobre a abolição, sua necessidade e suas consequências…
Notei que os liberais eram simpatizantes da causa abolicionista.
Percebi, através dos debates, que havia mais um fator influindo nas ideias abolicionistas dos liberais. Era a maçonaria cuja ação se norteava pelo princípio “liberdade, igualdade, fraternidade”. Concluí pelas conversações, que havia perfeita harmonia entre essa sociedade secreta e a Igreja Católica. Fiquei sabendo que ela estava de tal modo entrosada com o clero brasileiro que…desde o seu mais alto representante até o vigário da mais humilde paróquia frequentavam reuniões maçônicas. Muitos maçons faziam parte de confrarias e irmandades religiosas. Ouvi repetidas vezes, referência a personagens ilustres pertencentes à maçonaria. Cheguei à conclusão de que todos os homens que dirigiam os destinos da nação, a começar pelo imperador, eram maçons. Ouvi, também, em ocasiões diferentes, comentários sobre a participação da maçonaria em todos os movimentos políticos que envolveram o país desde a inconfidência…
[PAUSA] Lucas de Siqueira Franco Neto, chefe do partido liberal, tinha um grau elevado na maçonaria.
EPISÓDIO #08
Nem todos os que frequentavam os meus salões pertenciam ao Partido Liberal ou à maçonaria. De vez em quando surgia algum intelectual completamente desligado da política…
O ambiente externo que me rodeava não sofrera modificação alguma no tocante aos costumes…os elementos do sexo feminino continuam quase enclausurados. As jovens de classes mais abastadas, permaneciam nas fazendas cuidando da confecção de rendas…complicados crivos e…outros trabalhos manuais. As menos favorecidas economicamente cuidavam de todos afazeres domésticos. Raramente eram alfabetizadas…todas, porém, permaneciam à margem dos acontecimentos políticos e…das eleições só ouviam o eco…
Nessas ocasiões o largo, à minha frente, entrava em ebulição…fervia. De um lado grupos liberais, despreocupados…crentes na vitória. De outro lado os conservadores carrancudos…prontos para uma briga. De ambos os lados havia cidadãos honestos, exemplares chefes de família e também rapazolas dispostos a provocar conflitos.
Sabia, de antemão, que jamais chegariam às vias de fato…a população local era formada por uma grande família e os conservadores ou eram genros…ou cunhados…ou netos dos liberais. Representavam a minoria e…sabiam respeitos as cãs dos veneráveis patriarcas.
Certo dia notei grande agitação entre os liberais. Estavam com um grande problema…aproximavam-se as eleições para deputados provinciais…precisavam escolher um candidato…estavam acostumados a vencer as eleições locais, mas disputá-las com os conservadores de outros municípios era algo muito sério…
Pelas conversas, percebi que os adversários tinham, também, muitos elementos de grande valor…eram políticos habilidosos e…já haviam levado a melhor em diversas ocasiões…Tinham conseguido eleger deputados e senadores e… obtido a nomeação de ministros e presidentes de províncias.
Notei que os liberais conheciam a força de seus oponentes…não a menosprezavam…procuravam descobrir os seus segredos, para poder vencê-los. Recordavam, com saudade e entusiasmo, épocas passadas…na primeira legislatura conseguiram eleger um deputado provincial que fora reeleito várias vezes e permaneceu na Assembléia com quase um decênio.
[PAUSA]
Jacinto José Ferraz de Araújo Cintra, irmão do coronel Manoel Jorge Ferraz, foi o primeiro atibaiano a representar sua cidade na Assembleia Provincial. Eleito pelo Partido Liberal, em 1829, foi reeleito várias vezes.
EPISÓDIO #09
Acompanhei todo o trabalho desenvolvido pelos liberais nessa eleição. O movimento começou pelo grupo mais antigo… Houve diversas reuniões… houve encontros em várias fazendas. Todos deviam opinar livremente sobre a escolha do candidato.
Percebi, desde o início, que as atenções estavam voltadas para o bacharel em Direito. Reconheciam que lhe faltava aquele certo maquiavelismo indispensável a todo político… Para uns, isso até era uma qualidade… Devia votar leis de interesse da Província, sem partidarismo. Era talhado para isso… Era estudioso… ponderado…observador e…. dotado de grande senso de justiça. Conhecia os problemas da região, as aspirações e tradições de seus habitantes. Nascera em uma fazenda onde fora criado … estudara na capital onde fizera bons amigos… Tinha, portanto, vivência da cidade e do campo. Apresentava vantagem de ser irmão do chefe liberal e filho de um líder político, cuja a memória continuava venerada por todos.
Notei que o candidato escolhido tentou declinar daquela honra… não tinha ambições políticas… era, entretanto, um liberal convicto, não podia desapontar os que o haviam escolhido…. Aceitou sua candidatura.
Chegou o esperado dia. Houve o rebuliço de costume… a angustiosa expectativa…. O resultado final das apurações demoraria bastante…. O encarregado da correspondência tinha que vencer grandes distâncias a cavalo.
Senti que a povoação se encheu de vida… Por uns dias, houve gente transitando pelas ruas… até os comerciantes tiveram sua vez…
O comércio local era quase nulo… nas fazendas produziam quase tudo quanto era necessário para o consumo de seus moradores. Ouvi, algumas vezes, retalhos de conversa sobre produções agrícolas… meios de combater certas pragas…. variações de safra… problemas de armazenamento…. concluí, que para a alimentação, compravam apenas arroz… farinha de trigo… sal grosso… açúcar preto…este era refinado nas casas.
Havia comentários das senhoras sobre as diferenças entre os queijos… manteigas… rapaduras… melado… desta ou daquela fazenda. Discretamente, faziam fofocas até das vestimentas feitas com tecidos produzidos pelos teares caseiros… que ninguém as ouvisse…
Percebi que havia certos segredos na confecção do anil para alvejamento das roupas…na feitura das velas de sebo usados para iluminação… no preparo do sabão de cinza para limpeza dos utensílios domésticos…
Chegou finalmente o esperado dia… o correio trouxe o resultado oficial das eleições… a angustiosa espera dos liberais fora recompensada… seu candidato fora eleito.
Vi muita alegria… muitos cumprimentos… muita festa… Revi, nos dias que se seguiram, todos meus velhos e fiéis amigos… Os de avançada idade raramente apareciam…vieram, porém, cumprimentar o novo deputado…Vieram reviver saudosos dias e… conversar longo tempo sobre o passado.
[pausa] Doutor Manoel Jacintho de Araújo Ferraz foi eleito deputado provincial no pleito realizado em 15 de outubro de 1861.
EPISÓDIO #10
EPISÓDIO #11
Certa manhã, despertei assustado com o barulho feito pelos serviçais. Tinham saído da rotina… trabalhavam e conversavam com igual animação. Prestei atenção…Estavam comentando sobre uma reunião familiar acontecida na fazenda. Um dos assuntos tratados foi o embelezamento do sobrado.
O assunto me dizia respeito: iam mudar a decoração de todos os cômodos… fazer alguns reparos e … nova pintura externa. Fiquei, ao mesmo tempo, contente e … triste. Percebi que, por alguns meses, ia ficar privado da presença dos liberais…era uma pena aquilo acontecer justamente no momento em que as reuniões estavam tão interessantes.
Vi o chefe liberal dirigir, pessoalmente, todo o serviço… nenhum detalhe lhe passou despercebido. O trabalho foi executado com muita rapidez. Após pequenos consertos e pintura externa, iniciaram a substituição dos papeis que recobriam as paredes internas. Cada uma de minhas salas ganhou roupa nova, cada qual mais bonita que a outra: cores claras … motivos florais. Para o salão foi escolhido algo especial … uma paisagem marítima onde predominava um azul repousante.
Certo dia fui surpreendido com a chegada de uma nova mobília, muito diferente das minhas conhecidas. No salão foi colocado um bonito canapé… era muito sofisticado … tinha enormes patas com unha e tudo. Não chegou só … veio acompanhado pela respectiva comitiva: doze cadeiras simples, duas de braço, uma mesa redonda e dois consolos também providos de estranhas patas.
Notei que, para minha alegria, os conjuntos existentes nas outras salas, foram conservados. Estavam em minha companhia há bastante tempo. Eram originais… confeccionados por mãos artistas e destinados a atravessar o século pela solidez.
O mais antigo e, portanto, o mais querido, era o muito sóbrio assento de palhinha, sem nenhum enfeite. Outro, igualmente simples apresentava um detalhe no espaldar das cadeiras – uma flor de lis estilizada. O terceiro era a coqueluche de todos… Vi diversas pessoas, disfarçadamente, examiná-lo. Era composto por duas mesas tipo consolo, uma marquesa e doze cadeiras. As peças eram cuidadosamente trabalhadas e finamente marchetadas.
Quase me esqueci de fazer referência sobre o meu quarto de hóspedes, muito importante na minha vida. Espaçoso … bem ensolarado… com três janelas para o quintal. Seu mobiliário era simples e confortável: um cabideiro… um lavatório com os indispensáveis acessórios … … uma cômoda …uma cama com cortinado…
Fiquei curioso por saber o destino das peças substituídas, minhas companheiras de vários anos. Senti grande alívio quando vi que apenas mudaram de lugar: foram transferidas para o andar térreo.
EPISÓDIO #12
Senti muita satisfação à minha volta… tudo saíra de acordo com o planejado. Vi a chegada do pessoal da fazenda. A viúva e as filhas do dignitário da Ordem da Rosa raramente apareciam… Ficaram encantadas com a minha aparência e contentes porque suas opiniões foram acatadas.
Notei que estavam muito preocupadas … minha velha companheira também merecia atenção … a Igreja Matriz necessitava sérios reparos. Ninguém melhor que a piedosa senhora para se interessar pelo assunto… um de seus filhos era Chefe do partido Liberal e o outro deputado provincial. O primeiro encaminharia as sugestões através da Câmara Municipal, conforme as normas em vigor e … o segundo, cuidaria de que fossem aprovadas pela Assembléia Legislativa.
Ouvi muitos comentários sobre a importância… a responsabilidade da comissão de Câmaras Municipais… Conclui que era a mais trabalhosa de todas: era encarregada de dar parecer sobre as posturas enviadas pelos municípios… estas só seriam discutidas e aprovadas pela Assembléia depois de previamente estudadas e … algumas já contavam anos de atraso. Por votação, ficou decidido que a comissão começaria estudando as mais simples e… as que estavam aguardando parecer há mais tempo.
Deduzi pelas conversas, que o primeiro ano de atuação do deputado desta Vila transcorrera com muito estudo… muito trabalho e … sem incidentes sérios. Vi, com alegria, que seus esforços foram reconhecidos: o Dr. Manoel Jacintho de Araújo Ferraz foi reeleito no início do segundo ano, para as mesmas Comissões.
Percebi, pela alegria de meus amigos, que o ano começaria bem: este Município foi beneficiado com uma escola primária para alunos do sexo masculino.
Ouvi algum tempo depois outra boa notícia :as posturas apresentadas pela Câmara Municipal desta Vila foram aprovadas integralmente. Restava apenas a parte referente à Igreja da Matriz …
Notei uma aprovação geral quando o representante desta localidade apresentou uma emenda visando beneficiar seus conterrâneos… aqueles cuja situação econômica fosse precária ou… cuja saúde deficiente. .. uns ficariam isentos de pagar determinado imposto e … outros dispensados de prestar ajuda nas obras da Matriz.
PAUSA
OBSERVAÇÕES da autora: Gertrudes da Silveira Campos, filha do último Capitão Mor de Atibaia, viúva do Coronel Manoel Jorge Ferraz, muito contribuiu, juntamente com suas quatro filhas para o enriquecimento da Matriz de Atibaia. Doaram os lustres e dois altares com as respectivas imagens. Um deles é o de Sant’Ana (a primitiva imagem foi substituída) onde, de acordo com o costume da época, em 1865 foi sepultada Ana Jorge Ferraz, a primeira filha do Coronel Manoel Jorge Ferraz.
A segunda imagem, substituída por ocasião de uma reforma, foi doada por um membro da mesma família, conservada até hoje (1974).
EPISÓDIO #13
Pela animação dos Liberais, concluí que tudo continuava correndo bem … o povoado vivia dias calmos … havia tréguas entre os dois partidos… ninguém tinha motivos para queixas. Percebi que a Vila estava se sentindo importante… estava sempre incluída em todas as leis que visavam beneficiar os municípios … tinha conseguido as verbas e os empréstimos pleiteados pela Câmara Municipal. Começava a se equilibrar financeiramente.
Ouvi falar de suas grandes pretensões … queria ser elevada à categoria de cidade. Para isso tinha que preencher certas condições … era pequena e pobre, porém, estava unida… e unida venceria todos os obstáculos.
Notei que, nas reuniões, esse era o assunto mais discutido – e de grande agrado do velho capitão-mor. Considerado uma verdadeira enciclopédia em assuntos políticos, continuava sendo ouvido e acatado apesar de seus noventa anos… e no meio de seus filhos, genros, netos e bisnetos parecia um rei … sempre uma figura obrigatória naquele salão.
Nesse ambiente de satisfação geral, o tempo passou rápido… mais rápido que nunca. Vi, surpreso, os preparativos para novas eleições. Vi a vila exigir que seu representante se candidatasse. Senti que o povo estava certo de sua vitória e, para isso, contava com o apoio de diversos municípios. Sua atuação na comissão de câmaras fora excelente… justa…imparcial. Dera igual atenção às reivindicações dos municípios, cujas câmaras eram governadas por Conservadores como às que pertenciam aos Liberais.
Desta vez, não houve surpresas: foi confirmado o resultado previsto. Vi a Vila exultar de alegria quando seu representante – um dos mais votados – foi reeleito. Vi muitos festejos, muita alegria, muita esperança, muita paz e … novamente os Liberais à espera do correio … dos jornais… com suas notícias… com suas críticas e com suas páginas reservadas aos assuntos da Assembléia Legislativa Provincial.
OBSERVAÇÕES da autora: Na primeira sessão preparatória da Assembléia Legislativa de São Paulo, acontecida em 27 de janeiro de 1864, foram eleitas as comissões incumbidas de examinar a votação realizada nos diversos distritos da Província. Para verificar a votação do primeiro distrito foi eleita a seguinte comissão: Doutor Manoel Jacintho de Araujo Ferraz; Doutor Francisco Antonio de Souza Queiroz; e Doutor Antonio Clemente dos Santos.
Depois de examinados todos os diplomas apresentados pelos deputados eleitos, foi marcada a missa solene em honra do Divino Espírito Santo, que precedia à instalação anual da Assembleia.
Após a missa, realizada em 2 de fevereiro de 1864, os senhores deputados prestaram o competente juramento e regressaram ao Paço da Assembleia para continuar a sessão.
Em 4 de fevereiro de 1864 foram eleitas as diversas comissões, inclusive a de câmaras municipais, constituída por Doutor Manoel Jacintho de Araujo Ferraz; Doutor Francisco Antonio de Souza Queiroz e Doutor Antônio Casimiro de Macedo Sampaio.
EPISÓDIO #14
Vi, certo dia, a chegada de um mensageiro especial. Notei que foi recebido com grande satisfação… ouvi a leitura da carta. Comunicava que fora apresentado, na Assembleia Provincial, o projeto da elevação desta vila à categoria de cidade.
Vi a chegada do primeiro curioso … disfarçou um pouco… mas não resistiu muito tempo. Informou que vira, por acaso, um cavaleiro desconhecido passar e ficara intrigado. Assim que se inteirou do motivo da tal visita, saiu rápido para espalhar a novidade!
Percebi que a notícia voara. Momentos depois alguns rojões começaram a estourar … aqui e acolá… aguçando a curiosidade geral.
E as pessoas foram chegando … uma após outra… para comentar o acontecimento. Notei que umas eram otimistas e já contavam vitória. Outras, porém, apontavam uma série de dificuldades sobre o assunto. O pior de tudo era a espera… o projeto, antes de ser aprovado, tinha que passar por várias discussões e … nada mudaria essa rotina.
Notei que enquanto aguardavam as decisões da Assembléia Legislativa, trabalhavam com afinco nas obras da Matriz … orgulhavam-se de possuir uma das melhores igrejas do interior da Província. Isso também era um assunto constante… A vila nascera sob o signo da fé … e seus moradores eram profundamente religiosos. E a prova estava ali: apenas duas ruas … algumas casas esparsas e … duas igrejas.
Vi a vila vibrar, por várias vezes, com as notícias sobre o andamento do projeto na Assembleia. Sempre que apresentado… foi aprovado sem discussão. Nessas ocasiões, os rojões rasgavam o espaço em sonoro agradecimento e demonstrações de alegria.
Fui um dos primeiros a saber a grande novidade… a vila fora, finalmente, elevada à categoria de cidade. A carta do deputado provincial a seu irmão, chegou muito antes da notícia oficial. Ouvi o Capitão-mor dar graças a Deus por ter alcançado aquela benção… por ter vivido até aquele dia tão importante.
Vi a alegria das pessoas ao receber tão sonhada notícia. Notei que cada um a festejou a seu modo, enquanto aguardava o programa a ser estabelecido pela municipalidade.
Observações da autora: Nas atas das sessões da Assembleia Legislativa Provincial lê-se:
ABRE ASPAS: Vigésima terceira sessão ordinária aos 15 de março de 1864.
PROJETO
É julgado objeto de deliberação e vai a imprimir para entrar na ordem dos trabalhos o seguinte:
A Assembleia Legislativa Provincial resolve:
Artigo Único: fica elevada à categoria de cidade, com os mesmos limites atuais, a vila de São João Baptista de Atibaia. FECHA ASPAS. Paço da Assembleia Provincial, 14 de março de 1864. – F ponto França.
No folheto de divulgação de Atibaia editado em 1970 pelo IBGE, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, lê-se: abre aspas «A sede do município recebeu foros de cidade por força da Lei Provincial número 6 de 22 de abril de 1864. fecha aspas.
Em 18 de setembro de 1864, a Câmara Municipal realizou uma sessão extraordinária, precedida por um TE DEUM, afim de registrar o acontecimento. Houve um discurso e as formalidades de praxe. A ata dessa sessão se encontra no Museu Municipal João Batista Conti.
EPISÓDIO #15
Naqueles inesquecíveis e festivos dias acompanhei o palpitar de uma cidade cheia de esperança… esperança que transbordava de todos os gestos e palavras de seus moradores. Tornei-me muito importante: fui o centro de muitas reuniões onde decidiram assuntos sérios, onde discutiram as principais necessidades locais, que foram transformadas em reivindicações encaminhadas aos poderes competentes para solucioná-las.
Percebi que algumas eram de caráter particular. O entusiasmo era tão grande que diversos fazendeiros desejavam que suas propriedades, pertencentes a municípios limítrofes, passassem para este. Para isso, bastava uma autorização da assembleia provincial, que a concedia após rigoroso estudo.
Outras, entretanto, eram de vital interesse para os habitantes deste município. Entre elas estavam as referentes à Matriz. Todos os recursos da localidade já estavam esgotados e… ainda havia muito por fazer. Só restava um meio: pedir auxílio à assembleia provincial. Depois de minucioso estudo e muitos cálculos,ficou resolvido que fariam um pedido de empréstimo na importância de dezesseis contos de réis.
Ouvi os mais variados comentários sobre esse assunto … aquela pretensão iria, certamente, causar sérios debates na Assembleia. A Comissão da Fazenda, encarregada desse problema, era muito cautelosa. Notei, entretanto, um otimismo geral… a Câmara Municipal enviara o pedido porque sabia que tinha quem a defendesse … contava com o seu representante que até aquele momento não desapontara os que o haviam eleito.
Observações da autora: – Na trigésima quinta sessão ordinária, em 12 de abril de 1864, entre outros, entrava o seguinte requerimento:
« (Abre aspas) De Salvador Ribeiro de Toledo Santos, em que pede a esta Assembleia que por um artigo de lei declare que a fazenda do mesmo fica pertencendo ao município de Vila de Atibaia. – A Comissão de estatística.(fecha aspas) »
Esse requerimento recebe parecer favorável da referida comissão.
O ofício da Câmara Municipal solicitando o empréstimo de dezesseis contos, que entrara na Assembléia em 23 de março de 1864 e fora encaminhada à Comissão da Fazenda, foi objeto de um projeto para estudo e discussão na referida casa.
A Assembleia Legislativa Provincial decreta:
«(Abre aspas) Artigo Primeiro: Fica a Câmara Municipal da Vila de São João Batista de Atibaia, autorizada a contrair o empréstimo da quantia de vinte contos de réis para ser empregada nas obras da Matriz da mesma vila.
Artigo Segundo: A Câmara Municipal fica autorizada a aplicar no pagamento do empréstimo mencionado, o resultado da capitação existente em favor das obras da mesma Matriz.
Revogadas as disposições em contrário
Paço da Assembleia, 15 de abril de 1864 – Andrada Machado (fecha apas)»
Este episódio utilizou como referência atas das sessões da Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo (de 27 de janeiro de 1864 а 23 de abril de 1864).
EPISÓDIO #16
Senti que toda a atenção da cidade estava voltada para a minha velha companheira, a igreja. No largo que nos separava, o rebuliço era intenso… pessoas escravizadas carregando material de construção, transportando água das adjacências… feitores impacientes soltando imprecações… fazendeiros montados em belos cavalos fazendo ronda para colher de perto suas impressões… trabalhadores prestando colaboração espontânea. Havia, também, alguns espertalhões que nada faziam e tudo criticavam… raramente davam palpites válidos e se alguma de suas ideias era aproveitada … passavam a contar tremendas vantagens.
Percebi que a vida e a alma da cidade estavam concentradas ali. Esqueceram-se até das intrigas políticas que povoavam a província e muitas desavenças tiveram fim diante daquele templo. Cada paroquiano contribuiu com um pouco de si, de acordo com suas posses e suas habilidades.
Notei o especial interesse do capitão-mor por todos os detalhes daquele empreendimento. Um de seus filhos, membro do partido liberal, tomara o encargo da administração daquela obra, muito grandiosa para o local. Era um cidadão bem conceituado e conseguira muitos voluntários para auxiliá-lo na arrecadação de fundos. A população estava decidida a terminar a matriz até a época do natal e não ficaria de braços cruzados enquanto aguardava a resolução da Assembleia legislativa, sobre o empréstimo pedido.
Acompanhei, de perto, todo aquele movimento… os leilões de prendas… as quermesses… as contribuições dos fazendeiros. Ouvi muitas lorotas sobre as dificuldades encontradas para chegar até esta ou aquela fazenda, através de caminhos íngremes.. lugares mal assombrados e … ouvi até estórias de assombração.
Sob o som de serras…serrotes…martelos…cujos ecos pairavam no ar… o tempo passou…o natal chegou…e as obras da matriz ainda não estavam concluídas, nem o empréstimo pedido fora liberado.
Vi a aurora de um novo ano tão promissor quanto o que passara. Ouvi, novamente, os rumores do reinício das calorosas sessões da Assembleia Legislativa. As boas notícias começaram a chegar… a primeira foi que o representante desta cidade fora eleito para membro de duas comissões. Esse fato foi de agrado geral… a cidade continuava a ocupar o lugar de destaque que conquistara nos últimos anos. Seus moradores esperavam ouvir, brevemente, a voz de seu deputado, em defesa de seus interesses e essa voz levando, de um modo honroso, o nome da cidade pelos quatros cantos da Província.
Observação da autora: O tenente-coronel JOSÉ LUCAS DA SILVEIRA CAMPOS, presidente da Câmara Municipal de Atibaia, foi o encarregado da administração das obras da Matriz. A Rua José Lucas recebeu esse nome em sua memória.
Para a comissão de Câmaras Municipais foi reeleito pela quarta vez, em 27 de fevereiro de 1865, o Doutor Manoel Jacintho de Araujo Ferraz.
EPISÓDIO #17
Acompanhei, através dos liberais, o desenrolar da polêmica em torno do pedido de empréstimo para as obras da Matriz. Alguns deputados tinham feito objeções… criado dificuldades… argumentado contra a quantia pedida, muito elevada no entender deles. Percebi, pelos comentários, que a causa fora muito bem defendida pelo representante local. Ouvi muitas vezes a leitura daqueles discursos… isso devido ao especial interesse do capitão mor. Apresentava os jornais a cada visitante que aparecia e pedia para que lesse em voz alta os trechos assinalados… depois solicitava a opinião do leitor. Seu pedido era sempre acatado com bom humor … todos apreciavam o entusiasmo do velho líder.
abro aspas: Passarei agora, como testemunho ocular, a fazer uma narração dos serviços que se têm feito naquela igreja, e desde já, cumpre-me a assegurar que, em vista do estado ruinoso em que ela se achava, já teria desabado se não fosse em tempo reparada. Procedeu-se ao retelhamento do telhado todo: as paredes laterais foram de novo consertadas e seguradas. Fez-se uma pequena alteração na sacristia. Elevaram-se as paredes dela à altura da capela Mor, de maneira que a sacristia tenha a mesma altura que a capela Mor. Foi o único aumento que se fez.
Consertaram-se diferentes corredores e aproveitou-se toda a igreja, que nunca esteve concluída e que era uma das boas da província quanto ao seu tamanho, mas faltava concluir-se. Havia muitos lugares da igreja que não prestavam utilidade alguma, entretanto hoje está tudo aproveitado, reparado, em bom estado.
Esta matriz com 70 anos de existência nunca foi forrada, melhoramento que hoje está feito, estando já o forro todo oleado; as calçadas de fora estão prontas e as paredes do lado de fora rebocadas e caiadas; a torre está concluída, só falta concluir-se o frontispício; quanto ao soalho do corpo da igreja já estão as madeiras quase todas aparelhadas, e creio mesmo, que parte delas já estão colocadas em seus lugares. Muitos outros serviços têm sido feitos, o que seria longo enumerar; entretanto, se o nobre deputado quiser que lhe preste informações mais minuciosas, com muito gosto o farei.
Estando a obra no estado que acabo de expor, creio que em pouco tempo poderá o culto Divino ser, de novo, celebrado naquela igreja, com o que muito lucrará o povo atibaiano, visto como, há quatro ou cinco anos, que é obrigado a caminhar uma grande distância até a igreja do Rosário, a fim de assistir ao sacrifício da missa; acrescendo que esta igreja, além do inconveniente exposto da grande distância, acha-se em completo estado de ruína, de modo que há ameaça iminente perigo; e se, na ocasião de celebrar-se ali o culto divino, houver uma tempestade, é bem provável que o povo seja vítima de um desastroso acontecimento.
A vista de todas estas considerações que tenho feito, mostrando a necessidade que há de concluir-se, quanto antes as obras da Matriz, e atendendo-se que seria uma revoltante injustiça negar-se à Câmara na cidade de Atibaia uma autorização para um fim tão justo, nobre e santo, quando todo o ônus recai sobre o município de Atibaia, e quando esta Assembleia tem prodigalizado grandes quantias a outras municipalidades que se acham em condições muito vantajosas, espero que esta Assembleia fará justiça concedendo a autorização pedida por aquela Câmara; tanto mais, quando é certo que a Província não sofre prejuízo algum pelo fato de autorizar este empréstimo constante do projeto, quem sofre é o povo daquele município.
Creio ter concluído o requerimento oferecido pelo nobre deputado, pedindo informações e, ao mesmo tempo, demonstrada utilidade e urgente necessidade que há de ser o requerimento rejeitado e o projeto aprovado quanto antes. fecho aspas.
Observação da autora: Após a discussão, houve a votação de praxe, saindo vitorioso o representante de Atibaia, que advogava a causa do empréstimo para as obras da Matriz, contra a qual alguns deputados haviam manifestado.
Este episódio utilizou, como fonte de referência, atas da Assembleia Provincial do ano de 1865. Este discurso do ilustre morador do Casarão Julia Ferraz, Doutor Manoel Jacintho de Araujo Ferraz, foi proferido na sessão ordinária de 28 de fevereiro de 1.865.
EPISÓDIO #18
Notei justo orgulho, por parte dos liberais, quando outros municípios começavam a enviar cartas a seu representante, solicitando intervenção em favor de suas igrejas… e as cartas foram chegando mais ou menos no mesmo teor:
ABRO ASPAS: Acha-se em meio a obra do conserto da Igreja Matriz desta vila, cuja tem sido feita a custa dos povos deste município, apenas coadjuvada pelo cofre provincial com a módica quantia de quinhentos mil réis. O templo além de bem construído tem sofrido alguns reveses do temporal; pelo que está reedificando à custa dos povos.
Pede-se a Vossa Excelência, alcance da Assembleia a quantia de um a dois contos de réis para coadjuvar a obra em edificação. Os povos neste Município não merecem e nem tem merecido serem esquecidos, ou tidos como enjeitados, a vista de outros lugares que venturosos tem por Deputados – homens zeladores dos interesses de seus distritos, desempenhando a missão de seus cargos; não acontecendo outro tanto neste desgraçado distrito, que seus Deputados são negligentes e sua obrigação, é apenas quererem o letreiro de Deputados, e depois olham seus votantes (pobres bobos Eleitores) com desprezo inaudito, vilipendiando a missão que deviam desempenhar, não só para honra sua como daqueles que o elegeram! Vendo-se esses Eleitores obrigados a mendigarem o favor de outros ilustres Deputados que se oferecem a encarregarem-se do bem do círculo alheio, além dos seus. Valha-nos ao menos isso e em tempo terão recompensa conforme seus merecimentos e virtudes.
Além desta necessidade de socorro para a Matriz, tão justa, como necessária, também há outras cuja é a cadeia, que está pilando as taipas, no Largo da Matriz desta Vila, para a qual o governo concorreu com a quantia de um conto de réis. Os povos coadjuvam com seus contingentes para esse fim, mas como acabar-se esta obra em pouco tempo com alguma quantia, e socorros dos povos, se ela não pode ficar em menos de seis a sete contos de réis, sem mais um adjutório do mesmo governo? FECHO ASPAS
OBSERVAÇÃO DA AUTORA: Essa carta datada de 10 de março de 1865, foi enviada pela Vila de São João da Boa Vista e assinada pelos cidadãos: Francisco Pereira Mairão, Francisco Osório de Oliveira, Francisco Tavares Coimbra e João Thomaz de Andrade. Só chegou às mãos do Deputado Doutor Manoel Jacintho de Araujo Ferraz, em 12 de abril de 1.865. Transcrevemos a carta a título de curiosidade: serve para dar uma ideia da importância de Atibaia naquela época.
EPISÓDIO #19
Finalmente ouvi a grande notícia: os ofícios divinos já podiam ser celebrados na tão querida Matriz! Essa notícia foi logo confirmada pelo repicar dos sinos, agora mais alegres … mais suaves. Senti que tudo saíra a contento dos fiéis. Podiam se orgulhar de sua igreja. .. feita de preces… de sacrifícios…de muito trabalho … muito amor… muita fé.
O largo à minha frente retomou suas antigas feições: de absoluta calmaria nos dias comuns … e de intenso movimento nos dias festivos.
Nestas ocasiões, as janelas de minhas salas ficavam superlotadas de crianças … cheias de vida … cheias de curiosidade… cheias de alegria. Todas demonstravam especial predileção e entusiasmo pelas cavalhadas programadas para os festejos que aconteciam após o Natal.
Vi muitos desses espetaculares desfiles. Ouvi muitas estórias e lendas a esse respeito. Estavam ligados a tradição religiosa dos tempos das cruzadas… Relembravam os cavalheiros da idade média em defesa de seu rei nas terríveis batalhas contra os infieis. Notei que os festeiros lhe davam particular atenção. Não admitiam, de modo algum, que sua festa fosse inferior ao do ano precedente. Tudo era preparado com meses de antecedência: cada fazendeiro se esmerava em treinar seus melhores cavalos.. escolhidos com cuidado … todos da mesma raça e cor. No dia marcado, o desfile era digno da estrondosa salva de palmas que saudava sua aparição no largo para a primeira volta à procura do rei escondido em alguma parte.
Sob o aplauso geral desfilavam baios ataviados com fitas multicoloridas esvoaçando sobre o luzidio pelo amarelo torrado … amarilhos com suas bem cuidadas crinas e caudas brancas .. pampas arriados com a maior seriedade possível… saíam enfeitados com trabalhados laçarotes azuis baloiçando sobre o dorso castanho escuro… magníficos tordilhos ricamente ajaezados … um ou outro alazão enfeitado com flores.
O último cavalo nem bem havia desaparecido no fim da rua, já uma salva de palmas anunciava o retorno dos cavaleiros para sua segunda volta, ainda à procura da principal figura dos festejos.
Na terceira e última volta, a frente vinha o rei representado pelo festeiro ou seu primogênito, cuja aparição provocava sempre um murmúrio de admiração. Seu cavalo se distinguia de todos. Ora montava um belíssimo corcel negro com as quatro patas brancas semelhantes a graciosas botas … ora um soberbo cavalo branco primorosamente ataviado para a importante ocasião.
Aquele espetáculo onde a cidade via desfilar o que tinha de melhor em nobreza e raça terminava com uma distribuição de prêmios para os primeiros classificados. Tarefa dificílima para a comissão julgadora. A festa dos cavaleiros continuava pela noite afora.
OBSERVAÇÕES da autora: As obras da Matriz ficaram prontas em 1.865. Os festejos realizados nesse ano foram motivo para diversas crônicas.
Silveira Martins em seu livro sobre Atibaia descreve uma festa acontecida na semana santa de 1.865, festa que foi também comentada pelo Correio Paulistano.
João Batista Conti em seu livro Atibaianos de Outrora cita o seguinte fato: No ano que José Lucas foi festeiro, na cavalhada só saíram cavalos brancos.
EPISÓDIO #20
Pelo repicar dos sinos… pelo vozerio alegre vindo do largo … pelos efusivos cumprimentos e votos de boas festas . . . senti que mais um ano se fora.
Percebi, bem depressa, que para os liberais, as coisas não estavam tão boas como nos últimos tempos. Notei muita tristeza e preocupação. Uma notícia que inicialmente era apenas sussurrada foi passando de boca em boca … o estimado capitão-mor adoecera e tinha seus dias contados.
Participei da tristeza geral … éramos velhos amigos… crescemos praticamente juntos. Acompanhei todos os momentos importantes de sua vida… suas festivas bodas … sua solene investidura como capitão-mor … o crescimento de sua família … o casamento de seus filhos … o nascimento de seus netos e … toda sua participação na vida política da cidade. Senti sua presença em todas as reuniões do partido liberal. Vi que na revolução também sofrera as consequências da derrota.
Pelo pesado silêncio à minha volta, percebi que o momento fatal havia chegado. Foi mais um doloroso dia na minha história… tão doloroso como o da partida do Comendador da Ordem da Rosa.
Vi o largo, à minha frente, coalhado de gente … em número muito maior que nos dias festivos ou de eleições. Eram parentes. .. amigos. .. correligionários políticos…vindos de toda parte … de outros municípios … outras povoações … de fazendas e sítios…
Vi, pela última vez, Conservadores e Liberais unidos na mesma causa… todos juntos para render a última homenagem àquele que durante muitos anos se esforçara para promover a união de sua imensa parentela … desfazendo todos os pequenos mal entendidos surgidos.
O dobre triste dos sinos anunciou que tudo estava terminado … absoluto silêncio se fez a minha volta, silêncio que só foi quebrado alguns dias depois.
Por muito tempo ouvi dos familiares referências aos feitos, às máximas, aos conselhos daquele que tanto amara a cidade que o vira nascer, daquele que se fora para sempre … deixando muita saudade e … uma lembrança em cada coração.
Observação da autora: Lucas de Siqueira Franco, último capitão-mor de Atibaia, faleceu em 1866 aos 93 anos de idade, tendo na ocasião cerca de quatrocentos descendentes, de acordo com a genealogia paulistana de Luiz Gonzaga da Silva Leme. Todos os atibaianos de raiz estão ligados ao clã Siqueira Franco, isto é, aos capitães-mor.
EPISÓDIO #21
Vi a passagem de vários anos cheios de paz e harmonia.
Notei que as fileiras liberais dia a dia estavam sendo desfalcadas. Alguns vultos importantes haviam falecido e outros de igual prestígio tinham transferido residência para municípios distantes. Cada despedida ficou profundamente gravada. Era um amigo a menos, uma ausência a mais.
Certo dia percebi muita agitação ao meu redor: hora um, hora outro, aparecia afobado para comentar os últimos acontecimentos. Chegara à cidade um novo juiz municipal. Estava com firme propósito de reorganizar o Partido Conservador.
Ouvi muitos comentários sobre esse novo elemento. Fizera reuniões nas casas dos adeptos de seu partido e os animara prometendo vencer as novas eleições custasse o que custasse. Para ele não havia barreiras, tinha em suas mãos a lei… e a força.
Percebi que os liberais colhidos de surpresa ficaram estupefatos. Contra eles se levantou uma verdadeira perseguição. Este povo calmo, sensato, hospitaleiro, um tanto acomodado, sob os efeitos de um suave clima, foi sacudido por um vendaval. Eram rajadas de calúnias, de provocações, quer por palavras, quer por ações.
Vi os liberais indignados. Muitos de seus eleitores foram taxados de incapazes. Contra eles se levantaram injustas acusações: uns foram acusados de serem extremamente pobres, outros de analfabetos, outros de serem portadores de deficiências físicas. Alguns de possuírem fazendas em municípios vizinhos e, portanto, sem residência no local. Isso feria seus brios de bons cidadãos, sempre cuidadosos na observância dos requisitos exigidos para a qualificação de eleitores, pois ser eleitor era muito importante.
Notei que os respeitáveis senhores liberais estavam sendo desacatados e, contra sua vontade, iriam lutar. Alguns se cotizaram e contrataram um advogado que passou a residir na cidade para verificar de perto os acontecimentos, e bem defender seus clientes contra os ferrenhos ataques daquele terrível adversário que caíra como uma bomba sobre a pacata população.
Observação da autora: o historiador atibaiano, doutor Waldomiro Franco da Silveira, em seu livro sobre Atibaia, transcreveu um documento sobre o contrato do doutor Olímpio da Paixão pelos liberais. É datado de 1872 e foi cedido pelo nosso conterrâneo Benedito de Toledo Santos, cujo avô, Salvador Ribeiro de Toledo Santos, foi um dos expoentes do Partido Liberal. O referido juiz municipal era o doutor Antônio Bento de Sousa Castro.
EPISÓDIO #22
Notei muita ansiedade dos liberais nas reuniões. Estavam coletando provas para desmentir as acusações feitas pelo inimigo contra seus eleitores e conseguiram seu objetivo.
Vi muita alegria. Tinham vencido a primeira batalha. O adversário, porém, não se considerou derrotado. Tratou de usar novos ardis, mandou vigiar todos os pastos dos moradores da cidade e, pelo mais insignificante motivo, havia prisões, sempre de cidadãos liberais, atingindo sempre os menos favorecidos pela fortuna. Era o meio de provocar os elementos importantes do partido.
Foi mais além, tentou amedrontar o povo com ameaças. Mandaria recrutar para o exército ou marinha todos os jovens, cujas famílias votassem com os liberais. Julgava que essa medida seria uma boa arma, pois o voto não era secreto. Ouvi muitos comentários sobre esse assunto. Mais um fracasso da oposição. Os atibaianos eram homens de fato, cuja honra estava acima de tudo. Nem sequer admitiam a ideia de trair seus amigos.
Certo dia, ouvi uma notícia. Parecia incrível. O adversário, desesperado com a inutilidade de suas manobras, tentou convencer dois importantes cidadãos, muito estimados pelo povo, que não trabalhassem nas eleições.
Pela tensão do ambiente, percebi que chegara a véspera do célebre dia. Ouvi uma notícia arrasadora: todas as entradas da cidade foram fechadas pela polícia… as ruas patrulhadas… as residências dos liberais vigiadas. Foi uma noite diferente. Muita correria, alguns tiros, diversas prisões.
Percebi na manhã seguinte, logo cedo, a presença de diversos liberais, inclusive dos juízes de paz que deveriam presidir as eleições. Estavam se reunindo para, na hora marcada, irem até a Matriz onde se realizaria o pleito eleitoral.
Vi pouco antes da hora combinada um fato inédito na história desta cidade. Uma força policial fazer manobra cercando-me, armas embaladas em atitude ameaçadora. Sob as ordens do delegado de polícia que ostensivamente distribuíra o cartaxume.
Vivi instantes dramáticos. Senti um grande alívio quando aquele destacamento recebeu ordem para se retirar e seguir rumo à cadeia local.
Ouvi a resolução dos juízes de paz do Partido Liberal: por prudência, deixaram de comparecer ao local das eleições e comunicariam o ocorrido às autoridades superiores.
Observação da autora: Os fatos narrados aconteceram na eleição de 18 de agosto de 1872. Estavam no sobrado os seguintes componentes do Partido Liberal: Lucas Siqueira Franco Neto, presidente da Câmara Municipal; Doutor Manoel Jacintho de Araújo Ferraz, primeiro juiz de paz e presidente da mesa paroquial; Capitão Salvador Ribeiro de Toledo dos Santos, terceiro juiz de paz; José Alvim de Campos Bueno, alferes João Francisco Bueno de Aguiar, Luiz Ezequiel da Câmara e Vicente A de Carvalho.
EPISÓDIO #23
Durante muito tempo, aquele grupo de liberais ficou reunido a fim de relatar os últimos acontecimentos. Ouvi detalhe por detalhe tudo quanto havia acontecido. Conhecedores com antecedência das manobras inimigas, haviam planejado um contra-ataque.
Sabiam que alguns liberais residentes fora do perímetro urbano corriam o risco de serem presos se fossem vistos circulando pelas ruas da cidade. Como medida protetora, ficou combinado que eles deveriam chegar, e disfarçadamente se reunirem em duas casas diferentes, previamente escolhidas, uma situada no Largo da Matriz e outra mais distante. Assim, chamariam a atenção para dois pontos diferentes e… despistariam a ostensiva vigilância existente.
Diante da agressividade dos adversários, resolveram mudar de tática: deixariam de comparecer às eleições. Essa ideia, apresentada por um grupo mais prudente, foi discutida e aprovada. Na surdina, abandonaram os pontos de reunião sem serem notados e, no momento da exibição da força, já não havia liberais nas redondezas – apenas os que estavam reunidos naquela sala.
Ouvi a leitura do relatório que foi encaminhado ao governador da província. Nada foi esquecido.
Percebi, com o passar dos dias, que os conservadores estavam muito desapontados. Pela primeira vez venceram uma eleição nesta localidade. Não foi, porém, a vitória sonhada por tanto tempo, a vitória conseguida em competição leal, mas uma vitória forjada. Por sua culpa, a cidade ficou dividida: eram duas facções quase inimigas, e isso nunca foi o desejo daqueles pacatos cidadãos. Toda sua amargura aparece num memorial que enviaram ao governador, cuja leitura ouvi muitas e muitas vezes, pois os liberais conseguiram uma cópia do mesmo.
Observações da autora: As casas escolhidas para a reunião dos liberais nas vésperas das eleições foram a de Dona Anna Thereza Leite, situada no Largo da Matriz, e a de Dona Escolástica de Araújo Cintra.
EPISÓDIO #24
Houve muita polêmica em torno daquele documento enviado pelos conservadores ao governador da província… tornou-se uma fonte de anedotas. Ouvi os liberais criticando as absurdas invencionices do adversário contra trinta e dois votantes de seu partido. Naquilo tudo, só viram uma verdade: eram cidadãos de parcos recursos econômicos… tinham, porém, a renda exigida pela lei.
Vi os liberais se divertirem bastante com os seguintes queixumes e abro aspas: “Os liberais desta cidade sempre fizeram as eleições a seu modo, sem que nunca seriamente fossem elas disputadas pelos conservadores. Com isto, entendiam que era um abuso os conservadores trabalharem em eleição nesta cidade, que ela era um feudo liberal, dizendo abertamente: – porque os conservadores se hão de envolver em eleições se nós os tratamos tão bem? Os conservadores, não satisfeitos com a condição de servos, disputaram as eleições de 18 de agosto do ano passado e triunfaram! Com isto, ofendido o orgulho dos liberais, externaram-se de um modo não visto ainda: Não ouvem missa de padre conservador, não assistem – e nem seus fâmulos-, as festividades de festeiros conservadores; formaram sociedade de bailes composta exclusivamente de liberais; não cumprimentam os conservadores e praticam toda a sorte de desatinos que lhes vêm à mente.
Neste estado de cousas, reuniu-se a junta revisora composta do meritíssimo Doutor Juiz de Direito da Comarca, Joaquim Roberto de Carvalho Pinto, do presidente da Câmara Municipal, tenente Lucas de Siqueira Franco Neto, atual chefe do Partido Liberal, e do seu primo irmão, o Doutor Promotor Público da Comarca, Manoel Furquim de Campos, e a ela apresentou o dito presidente da Câmara longas listas de cidadãos para serem qualificados, dispensando os requisitos que a lei exige e bastando a única e indispensável qualidade de ser liberal ou republicano; esquecidos de que quase todos esses indivíduos, em época normal e bem próxima, julgaram incapazes, como consta da certidão sob número 3.
Estamos certos, porém, que outro seria o procedimento do integérrimo Doutor Juiz de Direito, se na ocasião pudesse ligar o nome às pessoas, porque então veria que eram muitas contra quem já votara por faltar qualidades; e se, apesar de conhecer o estado de exaltamento político dos liberais, supusesse que era à causa do procedimento do presidente da Câmara. A monstruosa qualificação de jurados, se não for por Vossa Excelência corrigida, tira aos conservadores todo o direito e garantia que oferecia o Tribunal do Júri com uma qualificação regular.
Os liberais desta cidade são tão vezeiros de fazer do Tribunal do Júri arma do partido que foi necessário, para contê-los, extinguir-se o Termo em 1852. Os mesmos e maiores indícios de ódios e rancores de aquela época se manifestam hoje. Convém, pois, pô-lhes barreiras, dando vossa excelência provimento ao recurso e fazendo que assim haja uma qualificação regular.
Excelentíssimo senhor, com uma tal qualificação, com um promotor que é parente próximo dos liberais dessa cidade e, com eles, intimamente ligados, tudo teríamos a recear, se não estivesse a administração Província entregue às mãos de Vossa Excelência, de cuja proverbial prudência e critério espera o recorrente que preferirá antes evitar o mal de que remediá-lo depois de feito. O recorrente espera justiça. Fecho aspas.
Observação da autora: Esse trecho foi copiado do recurso enviado pelos conservadores ao governador da província em 9 de janeiro de 1873. Atibaia pertencia à Comarca de Bragança, cujo Juiz de Direito era o Doutor Joaquim Roberto de Carvalho Pinto. Doutor Antônio Bento de Castro e Souza era apenas Juiz Municipal.
EPISÓDIO #25
Notei que os liberais não estavam preocupados com as acusações contidas naquele recurso enviado ao governador da Província. Sentiam-se plenamente satisfeitos por terem rompido de modo definitivo com seus adversários políticos. Ainda curtiam os acontecimentos da última eleição. As outras acusações que pesavam contra eles não eram graves… Facilmente provariam que eram falsas. Sabiam que se tratava de uma desforra da oposição… Esperavam por ela há algum tempo.
Ouvi muitos comentários sobre a atitude tomada pelo governador no tocante ao recurso enviado pelos liberais, cujo despacho foi o seguinte: Abro aspas:
“Ao juiz de Direito da Comarca de Bragança:
Consta do ofício que em data de 17 do corrente do mês dirigiu a esta presidência o juiz de paz mais votado da paróquia de Atibaia:
Primeiro: Que o juiz municipal, bacharel Antônio Bento de Souza e Castro, em dias anteriores à eleição declarava publicamente que havia de vencer.
Segundo: Que no propósito de amedrontar ao votante Fortunato Manuel Rodrigues, mandara prender e depositar a uma sua escrava, a pretexto de tratar-se de sua liberdade.
Terceiro: Que o primeiro suplente do delegado, o capitão João José de Amaral Lacerda, ordenara aos inspetores de quarteirão que notificassem para objeto de serviço público os guardas assim nacionais da reserva, como policiais.
Quarto: Que foram presos e recolhidos à prisão: o guarda nacional do serviço ativo Antônio José de Freitas, o reserva Salustiano da Cunha Ramos e, bem assim, Joaquim Mariano Leite, Vicente Ferreira de Paula, Gabriel Fernandes da Silva e o vereador da Comarca Municipal Felipe Rodrigues de Siqueira.
Cumpre, portanto, que Vossa Mercê sindique dessas ocorrências. Informe com urgência e minuciosamente a respeito.
Ao comandante superior de Jundiaí: Idem.
Ao Doutor Chefe de Polícia: transmitindo à vossa senhoria o ofício acompanhado de quatro documentos que oportunamente devolverá a esta presidência, no qual o juiz de paz mais votado de Atibaia refere fatos de arbitrariedades cometidos pelo juiz municipal, Bacharel Antônio Bento de Souza e Castro, e pelo primeiro suplente do delegado, capitão João José de Almeida Lacerda, a fim de que, procedendo as necessárias sindicâncias, informe a respeito, dando desde logo as providências que couberem em sua alçada.
Observação da autora: O Juiz de Paz mais votado da paróquia de Atibaia era o doutor Manoel Jacintho de Araújo Ferraz. O texto citado neste artigo foi copiado de um recorte do Correio Paulistano, presente no arquivo existente no Sobrado.